Tanto a economia da China quanto a dos EUA estão em situação crítica. No entanto, no plano estrutural, a China acumula uma série de vantagens decisivas sobre o concorrente:
A bolha chinesa é no tijolo, e o tombo vem sendo gradual ao longo dos anos. Não existe um S&P 500 de apartamentos piscando na tela do cidadão chinês; ele já internalizou o prejuízo e seguiu com a vida. Por outro lado, a economia americana depende 100% da bolha dos mercados financeiros: quando esta bolha da bolsa estourar, o colapso do sistema será instantâneo e devastador.
No pico da insanidade imobiliária, Xi Jinping foi taxativo: "imóveis são para morar, não para especular". Lançou a política das Três Linhas Vermelhas e aceitou a dor de estourar a bolha antes que ela levasse o país inteiro para o abismo. Trump e as lideranças ocidentais operam no sentido oposto: queimam todas as pontes para inflar artificialmente ativos financeiros e adiar a fatura. A liderança americana é incapaz de aceitar a realidade quando ela contraria narrativas eleitorais. Quando o crash finalmente chegar, a devastação será muito maior, uma vez que a bolha foi deliberadamente turbinada pelo governo.
Não carregar a moeda de reserva global obriga a China a produzir e vender valor concreto para poder importar. Os EUA se acostumaram ao privilégio de imprimir papel verde para importar a riqueza alheia. Quando a hegemonia do dólar ruir — e todo império um dia tomba — o choque será brutal: a América simplesmente desaprendeu a trabalhar para consumir.
Embora o endividamento total chinês seja astronômico, a China opera sob taxas de juros controladas e muito mais baixas. Já a máquina americana está prestes a ser engolida pelo pagamento dos juros da sua própria dívida, que drena fatias recordes do orçamento federal apenas para rolar esta dívida.
Apesar da crise, a China é a dona da cadeia produtiva do mundo: tem parque fabril instalado, escala insuperável e uma população com ética de trabalho disposta a operar o chão de fábrica. Os EUA desmantelaram sua indústria, terceirizaram o conhecimento prático e perderam a capacidade de fabricar em massa.
O Ocidente mergulhou no autofagismo: tribalismo, pautas identitárias e vitimismo crônico viraram método de conquista eleitoral pela divisão. Na China, o governo baniu sumariamente movimentos que fracionam o tecido da sociedade. Enquanto os EUA operam na histeria do "nós contra eles", a sociedade chinesa preserva um senso coletivo de ordem e responsabilidade individual que blindou o país da decadência contemporânea do lado oeste do mundo.
O mandato de quatro anos nas democracias ocidentais virou uma corrida predatória: cada grupo entra para espoliar os recursos públicos o mais rápido possível antes do fim do mandato. Na China, mesmo com a corrupção do aparato burocrático, o planejamento de Estado mira horizontes de 20 a 50 anos. O Ocidente perdeu a capacidade de enxergar o amanhã. De forma alguma o planejamento chinês é perfeito. Pelo contrário, existem muitos erros grosseiros, mas, ainda sim, certo ou errado, existe algum planejamento. No USA o planejamento é zero.
Na China, o que é decidido em infraestrutura é executado em prazo recorde. Nos EUA, qualquer ponte, ferrovia ou fábrica é soterrada por décadas de litígios, lobby corporativo, burocracia ambiental e processos infinitos. A "vetocracia" do Ocidente transformou o ato de paralisar obras produtivas em um troféu pessoal.
O ponto cego fatal da China é o silenciamento sistemático da crítica e a incapacidade de Xi em aceitar o contraditório. A livre expressão é o painel de instrumentos de uma nação. Sem o alerta honesto de onde as coisas estão quebrando, o piloto governa às cegas. E é importante frisar que essa fraqueza é gravíssima e esta por si só pode levar ao colapso do sistema.
No Enclave de Mônaco, vamos integrar exatamente o que cada lado tem de melhor: a potência industrial, a disciplina produtiva e o rigor executivo do Oriente com a soberania do indivíduo, a segurança jurídica e a irrestrita liberdade de expressão do Ocidente. Não é preciso escolher a decadência de um ou o autoritarismo do outro quando se pode construir uma estrutura superior a tudo o que existe hoje.